Os saveiros da Bahia

 

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Hoje, vamos tratar de um tema muito interessante, sobretudo para quem mora ou morou, como eu, na Cidade Baixa.

Lembro-me da feirinha da Baixa do Bonfim, em dias de sábado, onde se encontravam mercadorias diversas: a farinha de mandioca bem torradinha, o beiju acondicionado na folha verde de bananeira e  os docinhos de banana na palha seca, frutas variadas, entre outras delícias, trazidas pelos saveiros, vindos das Cidades do Recôncavo baiano.

Os saveiros  tiveram seu momento de apogeu no mar da  Baía de Todos os Santos e em rios do Recôncavo, sobretudo o encantador Paraguaçu, levando e trazendo  pessoas e mercadorias das cidades históricas ali encastoadas ,   para Salvador, e viceversa, desde a época do Brasil-Colônia, de modo especial durante o ciclo da cana-de-açúcar .

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Era, certamente, muito pitoresco vê-los singrando o mar da Bahia, leves, charmosos econômicos e simplesmente movidos  apenas pela força do vento.

Foram fundamentais para a economia do Estado. Eram responsáveis pelo transporte de mercadorias e cargas pesadas entre as cidades do Recôncavo como Maragojipe,  Cachoeira,  São Félix e Nazaré da Farinhas.

Mas teve grande importância na Independência da Bahia . Com efeito, a flotilha formada por saveiros, de João das Botas, combateu e expulsou a esquadra de Madeira de Melo, famoso comandante português, das águas da Baía de Todos os Santos.

No início do século XX, mais de mil saveiros navegavam pela nossa Baía. Com o passar dos anos, chegando ao século em que vivemos, 26 embarcações deste tipo, que fizeram sua história na Bahia, continuam resistindo para não acabar sua saga e afirmar a sua importância e utilidade  perante  as  mentes do nosso povo,  principalmente na região do recôncavo, em cidades como Maragojipe e Caxixis, que tiveram o bom senso de dar continuidade a esse meio de transporte.

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Todos os anos escolhe-se uma data para comemorar-se a festa dos saveiros, na qual, a Baía de Todos os Santos fica enfeitada com sua presença, cada qual ostentando velas multicoloridas içadas em seus altaneiros mastros.

Cada saveiro tem um nome, geralmente gracioso e pitoresco a exemplo do Sombra da Lua, que chega ao porto da capital baiana às quintas feiras e retorna para o cais de Maragojipe,  aos sábados pela manhã, levando e trazendo encomendas como geladeiras, fogões, sacos de farinha.E de Caxixi, parte o saveiro de nome Da Vida,  transportando obras e produtos artesanais, que serão comercializados na feira de São Joaquim. No seu retorno, leva diversos produtos e encomendas para aquela Cidade.

Sabemos, caros amigos e amigas, que para manter a tradição dos saveiros, os trabalhos isolados não são suficientes. É necessário um trabalho conjunto. Nesse sentido, alguns meios de comunicação já tiveram essa iniciativa e livros já foram escritos contando a história dessas embarcações.

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Vale a pena conhecer o livro Viva o Saveiro- Patrimônio Naval da Bahia ao qual está anexo um vídeo belíssimo sobre os saveiros da Bahia.

O escritor pernambucano Odorico Tavares, talvez tenha sido quem melhor entendeu a importância, o charme e os Imponderáveis do Saveiro baiano, como emerge dos excertos extraídos do Livro antes mencionado, abaixo transcritos:

“Ninguém pode fugir à fascinação dos saveiros. Sem eles, a beleza deste golfo que é a própria história de quatrocentos anos de grandeza do Brasil seria incompleta. Desde que se plantou aqui a bandeira da civilização, os saveiros têm trazido sua contribuição de utilidade e de beleza. Vejam-se os versos dos primeiros poetas e já os saveiros eram mencionados. Busquem-se as coleções dos primeiros poemas aqui publicados e já se encontrarão menções às embarcações que figuram como característica dos mares do Recôncavo Baiano.”.

E em seguida faz esta genial observação:

“Não se procure a definição de saveiros nos dicionários porque os pobres donos da língua sempre se repetem uns aos outros e dão os saveiros como meras embarcações fluviais. O sentido vivo e humano da embarcação baiana está nos versos dos seus poetas, nos seus cancioneiros, na boca dos tocadores de violão. De poesia e de canto é a história do saveiro baiano.”.

Não poderia concluir essa postagem sem dizer uma pequena palavra sobre o graminho e sobre os mastro dos saveiros.

Apesar da enorme variedade de saveiros construídos ao longo da história para usos diferenciados, em diferentes estaleiros e por diversos mestres, eles sempre possuíram uma impressionante homogeneidade de forma. E o responsável por isso é o graminho, uma peça de madeira similar ao ábaco, que serve para orientar o construtor do barco.

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Trazido da Índia pelos portugueses, mas com origens no antigo Egito e na China milenar, o graminho é, ao olhar do leigo, apenas uma tábua riscada. Para os que sabem usá-lo, contém parâmetros que dotam o artesão, de forma simples e compreensiva, de um volume de informações técnicas – estruturais e funcionais –, que são fundamentais para a construção da embarcação.

E por que os mastros de saveiros raramente quebram? “Conta-se que os mestres da construção naval costumavam esperar o momento certo – a lua cheia – para buscar a madeira que daria forma ao mastro mais resistente. Cortada no período de força da lua, ela era enterrada na lama dos mangues por um longo período de cura.

A importância da fase da lua no corte da madeira se justifica por um fator físico, de influência da lua sobre os líquidos. Com a lua cheia, uma quantidade maior de seiva é preservada no organismo da madeira, dando-lhe uma qualidade superior e menos ressecada do que aquela tirada em outro período.”

Tais informações foram obtidas no site http://www.museunacionaldomar.com.br/estrutura/bahia.htm

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Concluindo: se você quiser saber o que é um saveiro, se tiver espírito de aventura e quiser experimentar a sensação agradável e emocionante de ser por ele conduzido, vá até a rampa do Mercado Modelo e acerte com um saveirista um passeio pelas águas da Baía de Todos os Santos, e saia bordejando e admirando algumas das suas encantadoras Ilhas, e ao retornar não deixe de nos contar suas impressões.

Não sei, mas acho que embarcações desse tipo, podem voltar a ter, num futuro não muito distante, um papel importante como meio de transporte alternativo.  E o graminho um instrumento muito procurado.

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5 comentários em “Os saveiros da Bahia

  1. Senhora Cátia, seria interessantíssimo um passeio com os amigos corajosos em um dia calmo, ensolarado e com pouco vento e durante o passeio comentar e relembrar todos esses aspectos comentado sobre os saveiros em vosso blogue. Seria um excelente apostolado!

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