A pulcritude da honestidade

Primeiramente, esclareço que pulcritude é uma palavra que não é muito usada, mas que significa uma coisa muito bela e também uma forma de beleza sublime e especial. Sua raiz etimológica está na palavra “pulchra”, originária do Latim, que significa bela.

 Adentrando o assunto, que será tratado neste post, constatei que os estudiosos da vida, obra e pensamento de São Tomás de Aquino, ficam abismados ante as virtudes, a erudição e cultura  daquele que é conhecido como Doutor Angélico, pela pureza e inteligência angelical que ornavam a sua personalidade.

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Pode-se afirmar que  ele tratou de todas as matérias e disciplinas então conhecidas, com uma maestria, concisão e profundidade jamais superadas, sequer rivalizadas por nenhum outro pensador.

E isto tudo aliado a uma humildade e simplicidade de pasmar!

Contam os seus historiadores que diante de uma questão insolúvel, ele que era frade dominicano colocava sua cabeça dentro do Sacrário, que guardava a Hóstia consagrada e assim permanecia por longo tempo , até que fosse iluminado diretamente por Deus sacramentado! E ele dizia que assim ele aprendia mais do que horas e horas estudando e pesquisando em livros.

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E entre tantos assuntos, ele aprofundou e discorreu com exímia sabedoria e pulcritude  sobre a honra, a honestidade e também sobre vício oposto a estas virtudes, que é a desonestidade, que para ele  nada mais é   do que a falha de caráter (Suma de Teologia vol. IV, Parte II – IIb.

Lecionava o “ Aquinate”, como também o chamavam e chamam até hoje,  que

 “ a honestidade é um estado de honradez. Aquele que é digno de honra é honesto  e vice-versa. A honra tem que ver com a excelência e esta é entendida como uma disposição de caráter em direção ao que é ótimo e digno de admiração. Ora, essas são as características da virtude; logo, a honestidade coincide com a virtude. Aquele que é honesto é digno de honra e esta é o reconhecimento da excelência de alguém”.

Que definições e explicitações fantásticas, não é mesmo? Ajudam-nos a pensar, a raciocinar, a nos esforçar e a nos elevar, em suma, e isto é bom! Tira-nos da preguiça mental, da inércia, da mediocridade! E assim vamos subindo aquele monte hipotético, a que nos referimos no primeiro post.

Mas continuemos escutando o Doutor Angélico:

“A honestidade consiste na similitude entre a eleição interna e os   comportamentos externos, num caso e noutro orientados para a excelência, o bem e o belo. É por isso  que é apropriado dizer-se de alguém honesto que é também uma pessoa boa e bela. É bonito ser-se honesto. É feio ser desonesto. Aquele que é honesto é bom. O desonesto é mau porque revela uma profunda falha de caráter.”

Sim, amigos, a beleza mais eminente é a interior, e a feiura que verdadeiramente repele é  a de caráter!

E  São Tomás arremata de forma magnífica e contundente:

“Uma sociedade que tolera a desonestidade é uma sociedade intrinsecamente desonesta”.

Nossa! Se ele vivesse no século XXI, o que diria da situação do Mundo?

São Tomas estudou também sobre a relação da honestidade com a temperança, e outras virtudes, mas  hoje não vou tratar  desse tema.

  Mas, vejamos o que ele diz ainda sobre a honestidade:

“Chama-se honesto ao que tem uma certa beleza subordinada à razão. Ora o ordenado segundo a razão é naturalmente conveniente ao homem. Pois, cada um naturalmente se deleita com o que lhe é conveniente. Por isso, o honesto é naturalmente deleitável ao homem, como  o prova o Filósofo ao tratar dos atos de virtude” (S. Th, II, II, Q, 145).

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Ou seja, em minha modesta opinião, ele afirma que tudo que é honesto contém uma beleza, pois está ordenado segundo a razão e é conveniente ao homem, o que vale dizer que a honestidade causa uma felicidade de situação, em suma, acarreta uma paz de espírito, profundamente deleitável e aprazível.

Via de consequência, o desonesto acarreta efeitos contrários: é feio, desordenado, inquietante e perturbador.

Na Bíblia Sagrada encontramos ensinamentos sobre o honesto  em vários dos seus Livros, mas  a título de ilustração, citamos apenas as passagens abaixo:

“ Constrói sua casa como a casa da da aranha,como a choupana que o vigia constrói.

Deita-se rico, mas é pela última vez.

Quando abre os olhos, já deixou de sê-lo.” (Jó 27,18-19)

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“Melhor é, portanto, a condição de um homem honesto que não tem ídolos, pois assim estará sempre isento de confusão. (Baruc 6, 72)

“Se o mau renunciar à sua malícia para praticar o bem e ser honesto, ele viverá por essa razão .” (Ezequiel 33, 19)

O modelo perfeito e acabado da pulcritude da  honestidade  foi  Nosso Senhor Jesus Cristo, que sendo Deus e Homem verdadeiro possuía em Si todas as virtudes em grau inexcedível de perfeição, e por causa disto foi rejeitado pelos sacerdotes e doutores da Lei , traído por um de seus discípulos e acabou sendo condenado à morte e morte de Cruz! Mas como sabemos, Ele ressuscitou ao terceiro dia, e agora se encontra ao lado de Deus Pai, donde há de vir à terra para julgar os vivos e os mortos, como rezamos  no Credo.

E uma das representações mais eloquentes das suas virtudes , e portanto da honestidade, no seu sentido mais amplo e completo, é a Imagem do seu Sagrado Coração, daí porque a colocamos como ícone do presente post. E Ele nos legou ainda um modelo ainda mais próximo de nós, que é o Imaculado Coração de Maria que está pronto a nos socorrer sempre.

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Portanto, digamos sempre: ” Sagrado Coração de Jesus, fazei meu coração semelhante ao Vosso!”

” Doce Coração de Maria, sede meu refúgio e proteção”!

Ou, simplesmente, ” Sagrado Coração de Jesus e de Maria, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro!”

Sim, meus irmãos, na situação em que se encontra a humanidade, só podemos esperar que venha do Céu, uma solução verdadeira e duradoura, e que restaure o senso do ser, do certo e do errado, em suma, a luz da razão dos homens e mulheres, iluminando-a pelo farol da Fé, da Esperança e da Caridade!

E para corroborar com tantas reflexões filosóficas e teológicas, em torno da honestidade, deixamos-lhe uma bela e simples historinha, intitulada:

“A recompensa da honestidade”

A alegria sempre esteve presente no lar de Henrique, pela harmonia que ali reinava. Como bom chefe de família, trabalhava incansavelmente para sustentá-la. Porém, conseguia, com esforço, só o necessário para uma vida sem muita folga. Não obstante, com sua esposa e filhos eram muito estimados na aldeia, pelas demonstrações que davam de virtude. Na verdade, a devoção a Jesus Sacramentado era o centro da família e daí emanavam as bênçãos para aquela humilde morada.

Entretanto, uma profunda tristeza veio abalar tão abençoada família: sendo acometido por uma doença mortal, depois de gastar suas economias com remédios e hospital, Henrique deixou a esposa, Helena, e seus três filhos na miséria. Antes, contudo, de exalar o último suspiro, quis dar aos seus um conselho simples, mas precioso:

– Em qualquer circunstância da vida, nunca deixem de invocar Aquele que é Todo-Poderoso. Na Eucaristia está o remédio para qualquer aflição.

Após sua partida para a eternidade, quem sustentaria a família? Os filhos ainda não tinham idade para trabalhar e Helena, devido aos cuidados com o marido, também ficara com a saúde abalada, sem condições para tanto. Por isso, em pouco tempo, não havia na casa sequer um pouco de farinha… Estavam a um passo da indigência completa. A viúva, desamparada em tal situação, não encontrou outra saída senão mendigar pelas redondezas. Não faltaram almas generosas que se enternecessem, à vista de sua dor. No entanto, o obtido não era suficiente.

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Um dia, estando com os filhos para rezarem o terço como o faziam todas as tardes, entre lágrimas, dona Helena não resistiu e desabafou-lhes suas angústias:

– Meus filhos, estamos passando por momentos difíceis! Comove-me pensar que nem sequer temos o indispensável para sobreviver. Sua mãe não é capaz de trabalhar, e mendigar não traz muitos resultados…

Mateus, o mais velho, julgando-se responsável e adulto, quis tranquilizá-la:

– Não se preocupe, mamãe, sou grande e já posso trabalhar. Amanhã vou percorrer a aldeia em busca de serviço. Assim, poderei sustentar a família!

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– Agradeço sua boa disposição, meu Mateus – disse a bondosa mãe -, mas você só tem dez anos!…

Luísa, a segunda filha, procurou consolá-la, dizendo-lhe:

– Mamãe, não se aflija, lembre-se do que o padre disse no domingo: Deus é protetor dos órfãos e das viúvas. Ele nunca vai deixar de nos amparar. Se Ele nos mandou o sofrimento, é porque nos ama!

– Sim, confie em Jesus – acrescentou Pedro, o pequenino. Papai disse que é na Eucaristia onde está o remédio para todas as aflições!

Reconfortada pelas palavras dos filhos, dona Helena, logo pela manhã, dirigiu-se à igreja a fim de implorar auxílio a Jesus, presente na Sagrada Hóstia. Já ao entrar no recinto sagrado foi inundada por enorme consolação, pois o Santíssimo estava exposto, criando um ambiente acolhedor, cheio de graças e de bênçãos. Ajoelhando-se junto ao altar, passou longas horas externando suas dores ao Divino Redentor e suplicando-lhe misericórdia.

Estava tão entretida em suas orações, que nem sequer percebeu a entrada de dois homens na igreja. Eram empregados do fazendeiro mais rico da região, os quais, após terem passado pelo banco para retirar uma boa quantia de dinheiro do patrão, quiseram visitar o Santíssimo Sacramento.

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Completada a visita, retiraram-se, montando logo em seus cavalos, pois estavam atrasados com suas obrigações. Nesse ínterim, a viúva também foi saindo, e viu desprender-se e cair um saco volumoso da cavalgadura deles. Pesarosa,
a boa senhora tomou-o agilmente para devolvê-lo, não conseguindo, porém, devido à rapidez com que se distanciaram.

Dona Helena percebeu ter uma grande fortuna nas mãos e pensou: “Ah! Se tivesse a metade disso… tudo em casa estaria resolvido… Poderia me curar e trabalhar para sustentar meus pequenos!”.

Não se deixando seduzir pelas moedas que pareciam palpitar naquele saco, no mesmo instante, foi entregá-lo ao sacristão, depois de ter-lhe explicado o ocorrido, pois, na aldeia era costume, quando aconteciam fatos similares, entregar os objetos perdidos à secretaria paroquial. Com a consciência tranquila, regressou para casa com a alma em

Os empregados, somente ao chegarem à fazenda deram-se conta da falta do dinheiro. Cheio de aflição, um deles foi narrar ao patrão o sucedido, creditando-lhe que, por certo, havia caído por onde passaram. O patrão, muito piedoso, resolveu ir à igreja com o intuito de rezar para encontrar o objeto perdido. Chegou pouco tempo depois de a viúva haver se retirado. Aproximando-se do Santíssimo Sacramento, implorou a ajuda do Senhor dos senhores, pois naquele dinheiro estava o salário de seus empregados e, apesar de ser rico, esta falta ia desequilibrar seus negócios.

Impulsionado por uma graça, dirigiu-se à sacristia a fim de perguntar ao sacristão se, por acaso, não havia visto o valioso saco. Este lhe respondeu afirmativamente, e devolveu-lhe seu dinheiro, explicando ter sido uma pobre viúva sua grande benfeitora. Comovido diante da honestidade da boa mulher, quis agradecê-la, indo até sua residência.

Lá chegando, soube da história de sua vida. Condoído por sua situação e tocado por sua honestidade – que nem a extrema necessidade conseguiu abalar -, deu-lhe todo o saco como recompensa. A miséria de dona Helena pôde ser suprimida, ela cuidou da saúde e conseguiu sustentar a família dignamente.

De igual modo, o bom patrão também premiou seu servo, por lhe haver demonstrado tanta honestidade, assumindo o caso e sendo veraz em contar-lhe o sucedido, não inventando nenhuma desculpa ou falsa razão pelo desaparecimento das moedas. Por isso, o fez administrador de sua fazenda.

Este é o modo como Nosso Senhor retribui a todos aqueles que O buscam para adorá-lo e fazer-Lhe companhia no Santíssimo Sacramento!

(Revista Arautos do Evangelho, Maio/2012, n. 125, p. 46-47)

Você meu irmão, você minha irmã, que têm filhos ou netos, ou sobrinhos, e quem sabe é um professor ou uma professora, repassem essa historinha, que pode ser útil para a formação deles.

Deixo, ainda para vocês um pensamento do escritor francês Charles Perrault que nos legou belíssimas histórias infantis, conhecidas no mundo inteiro, muitas delas povoadas de fadas, a exemplo de “Branca de Neve”, a “Gata Borralheira”, “O Gato de Botas”, entre outras, que a par da beleza e das lições de vida que contêm, proporcionam aos seus leitores, mormente crianças e jovens, momentos de salutar e rico entretenimento.

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Referência de pesquisa:

Suma Teológica

Bíblia Sagrada, Ave Maria

Revista Arautos do Evangelho, maio/2012, n. 125

 

 

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4 comentários em “A pulcritude da honestidade

  1. Oportuno o post nesse triste período de muita desonestidade que permeia todas as áreas, em todos os cantos da Terra. Aqui, em nossa amada pátria então…. Precisamos nos esforçar para praticar a honestidade e repelir nossos erros, pois, assim, contribuiremos para um mundo melhor e mais bonito para as gerações futuras.

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  2. Querida cunhada, o nosso pais rsta precisabdo de pessoas como d. HELENA. Mas nao podemos perder a fe de que um dia teremos pessoas honestas governando a nossa Nação!
    Tema bastante apropriado para a situação do Brasil!!! Sejamos todos honestos e teremos um país bem melhor!

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